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Maternidade e saúde mental: o sofrimento que ninguém conta

05 de nov. de 2025
LM
Luciana Manzoli Parangaba
Maternidade e saúde mental: o sofrimento que ninguém conta

"Ser mãe é padecer no paraíso." Essa frase popular, repetida com naturalidade, esconde em si uma verdade que a sociedade insiste em romantizar. A maternidade, frequentemente apresentada como a experiência mais sublime da vida de uma mulher, é também uma das mais desafiadoras para a saúde mental — e falar sobre isso ainda é cercado de tabu, culpa e julgamento.

A chegada de um bebê transforma radicalmente a vida da mulher: o corpo muda, o sono desaparece, a identidade se reorganiza, os relacionamentos se reconfiguram e a liberdade individual se reduz drasticamente. Para muitas mães, esses primeiros meses (e até anos) são marcados por sentimentos que ninguém havia antecipado: exaustão profunda, solidão em meio à companhia constante do bebê, irritabilidade, tristeza, medo de não ser boa o suficiente e, em casos mais graves, depressão pós-parto e ansiedade materna.

A depressão pós-parto afeta entre 10% e 20% das mulheres e se manifesta por tristeza persistente, choro frequente, dificuldade de se vincular ao bebê, alterações no sono e apetite (para além das mudanças esperadas), pensamentos negativos recorrentes e sensação de inadequação. No entanto, muitas mães não procuram ajuda porque sentem vergonha de admitir que não estão felizes — afinal, a narrativa social diz que deveriam estar vivendo o "melhor momento de suas vidas".

A psicanálise nos oferece uma compreensão profunda desse fenômeno. Winnicott, pediatra e psicanalista, cunhou o conceito de "mãe suficientemente boa" — aquela que não precisa ser perfeita, mas que se dedica ao cuidado do bebê de forma "suficiente", podendo também falhar, errar e ter momentos de esgotamento. Esse conceito é libertador porque retira da mãe a pressão de uma maternidade idealizada e a autoriza a ser humana.

A ambivalência materna — amar o filho e, ao mesmo tempo, sentir raiva, cansaço ou arrependimento — é um fenômeno psíquico normal e esperado, embora raramente validado pela sociedade. A psicanálise compreende que é possível amar profundamente e, simultaneamente, se sentir sobrecarregada. Essas emoções não são excludentes, e reconhecê-las é fundamental para a saúde mental da mãe e para a qualidade do vínculo com o bebê.

Além disso, a maternidade frequentemente reativa questões da própria infância da mulher. A relação com sua própria mãe, as experiências de cuidado (ou falta dele) que recebeu, os modelos familiares internalizados — tudo isso retorna com intensidade quando ela se torna mãe. Muitas mulheres se surpreendem ao perceber que repetem padrões que juraram não reproduzir, ou que sentem ressentimentos antigos que pareciam superados. A terapia oferece um espaço seguro para elaborar essas questões.

O acompanhamento psicoterapêutico durante a gestação e o puerpério é um investimento na saúde da mãe, do bebê e de toda a família. Na terapia, a mulher encontra um espaço de escuta livre de julgamento, onde pode falar sobre seus medos, frustrações e ambivalências sem ser rotulada como "má mãe". O processo terapêutico ajuda a ressignificar a experiência materna, reduzir a culpa, fortalecer a autoestima e construir uma maternidade mais autêntica e possível.

Se você é mãe e sente que está sofrendo em silêncio, saiba que pedir ajuda não é fraqueza — é um dos atos mais corajosos que uma mãe pode fazer, por si e por seu filho. Você não precisa dar conta de tudo sozinha.

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